Amores-satélite
Chegam. Aproximam-se como luas curiosas, orbitando minha maré, bebendo o reflexo da minha luz sem ousar entrar na noite inteira que me habita. Me contemplam da margem, fascinados pela imensidão, mas temerosos daquele instante em que a água deixa de ser paisagem e se torna profundidade. Dizem que me amam. Mas amam fragmentos: o riso que os acende, a pele que os convoca, a palavra que os desnuda, a alma que os eleva. Amam a luz que encontram em mim, mas nem sempre estão dispostos a conhecer a sombra que a sustenta. Esquecem que também sou tempestade, silêncio, correntes subterrâneas, marés que mudam sem pedir licença. E assim permanecem, girando ao meu redor, atraídos pela minha gravidade, perto o bastante para sentir meu calor, longe o bastante para não naufragar. Não tocam o fundo. Não lançam âncora. Não se entregam ao mistério de deixar de ser espectadores. E não, eu não mendigo amor. Nunca estendi as mãos vazias para recolher as migalhas de uma presença, nem confundi a órbita com o encontro, nem o fascínio com a entrega. Sei que meu oceano não se bebe em goles, que não se conhece o mar molhando apenas os pés, que há profundezas que só se revelam a quem ousa descer sem pretender dominá-las. Não quero luas que me rodeiem nem astros que se alimentem da minha luz enquanto preservam intacta sua distância. Quero quem se aproxime sem a pretensão de me salvar, quem não confunda minha intensidade com perigo nem minha liberdade com ausência de amor. Quem compreenda que habitar um oceano não significa possuí-lo, mas aprender suas linguagens, respeitar suas correntes, reconhecer seus silêncios e permanecer quando a água deixa de ser calma. Porque minha profundidade não é uma prova, nem minha tempestade uma ameaça. São também parte da minha beleza, dessa natureza indomável que não vou trair para me tornar mais fácil de amar. E enquanto isso, seguirei sendo mar. Com minhas marés e meus naufrágios, minhas águas transparentes e meus abismos sem nome. Com a lua refletida na minha pele e a noite pulsando nas minhas entranhas. Não esperarei por quem ouse me olhar, mas por quem, depois de me contemplar, compreenda que o amor não acontece ao redor de alguém, mas no encontro verdadeiro com tudo o que esse alguém é. E se um dia chegar, não precisará me prometer o infinito. Bastará que deixe de orbitar, se aproxime sem armaduras e se sente comigo diante do mar. Que não venha me iluminar: já conheço minha luz. Que não venha me domesticar: aprendi a navegar minhas próprias águas. Que venha, simplesmente, com a coragem de quem não busca um lugar onde se refugiar, mas um mundo para conhecer. E então saberei que não veio girar ao redor da minha vida, mas se encontrar comigo no centro da sua. Porque eu não nasci para ser o satélite de nenhum amor, nem para transformar meu oceano numa margem onde outros descansem antes de partir de novo. Nasci para ser mar. E quem quiser me amar terá que compreender que a imensidão não se contempla de longe, se encontra, se respeita e, se a alma assim escolher, se navega a dois.
